Competição na escola melhora a aprendizagem?

 


A competição pode aumentar o entusiasmo dos alunos, mas transformar a sala de aula em um ranking não garante aprendizagem

Na Escola Caminhos do Saber — nome fictício — a equipe pedagógica decidiu organizar um grande campeonato de Matemática.

Durante quatro semanas, estudantes de diferentes turmas responderiam a desafios, resolveriam cálculos e participariam de provas de velocidade. Cada acerto renderia pontos. Um painel colocado no corredor mostraria a classificação atualizada das equipes. Ao final, os integrantes do grupo vencedor receberiam medalhas e seriam apresentados como os “Campeões da Matemática”.

Nos primeiros dias, a iniciativa pareceu um sucesso.

Os alunos estavam animados, os corredores ficaram movimentados e algumas crianças passaram a estudar mais para ajudar suas equipes. Professores e familiares elogiaram a criatividade do projeto.

Com o passar das semanas, entretanto, surgiram situações que não apareciam no painel de pontuação.

Os estudantes que já tinham facilidade em Matemática passaram a responder pela equipe inteira. Alguns colegas permaneceram calados por medo de errar e perder pontos. Outros começaram a acreditar que não eram bons na disciplina. As mesmas equipes permaneceram nas primeiras posições, enquanto os grupos com mais dificuldades perderam gradualmente o entusiasmo.

No encerramento, havia vencedores, medalhas, fotografias e uma tabela final. Mas algumas perguntas ficaram sem resposta:

Os alunos realmente aprenderam mais ou apenas responderam mais rapidamente?

Os estudantes que tinham dificuldades receberam ajuda para avançar?

A competição permitiu compreender os erros ou ensinou os alunos a escondê-los?

Os pontos avaliaram aprendizagem, memorização, velocidade ou apenas conhecimentos que alguns estudantes já possuíam?

O campeonato aproximou os alunos ou dividiu a turma entre vencedores e perdedores?

Essas perguntas não significam que toda competição escolar seja necessariamente prejudicial. Elas mostram, porém, que nenhuma atividade se torna pedagógica apenas por ser divertida, movimentada ou capaz de despertar entusiasmo.

Competição não é metodologia de ensino

A competição pode funcionar como um recurso dentro de uma proposta educacional. Ela pode estimular a atenção, aumentar o esforço e tornar determinadas atividades mais envolventes.

Entretanto, competir não é o mesmo que aprender.

Para que exista aprendizagem, o aluno precisa compreender conceitos, formular hipóteses, testar estratégias, analisar erros, receber devolutivas e relacionar o conhecimento com novas situações.

Uma disputa pode produzir animação sem produzir compreensão.

Uma pesquisa brasileira realizada em uma universidade pública do Paraná analisou o uso de gamificação e jogos educacionais em aulas de Língua Inglesa. As atividades incluíam trabalho em grupo, competição, rapidez de pensamento e tomada de decisões. Os participantes relataram mais motivação, engajamento e autoconfiança. No entanto, a análise da produção oral não encontrou ganhos linguísticos significativos. (Periódicos)

O estudo não demonstra que jogos e competições sejam inúteis. Ele evidencia uma diferença fundamental:

O aluno pode gostar mais da atividade sem necessariamente aprender mais por causa dela.

Motivação é importante, mas não substitui planejamento, mediação docente, acompanhamento e avaliação da aprendizagem.

O problema começa quando vencer se torna o principal objetivo

Em uma competição tradicional, o sucesso de um participante depende da derrota dos demais. Existe um número limitado de medalhas, posições e reconhecimentos.

Essa lógica pode ser adequada a uma partida esportiva ou a um torneio recreativo. Na aprendizagem, contudo, ela precisa ser examinada com cuidado.

Quando a escola valoriza somente o primeiro colocado, transmite implicitamente a mensagem de que aprender não é suficiente: é necessário aprender mais rapidamente ou obter resultados melhores que os colegas.

Forma-se, assim, uma espécie de currículo oculto. Além dos conteúdos escolares, os estudantes podem aprender que:

·        errar é perigoso;

·        ajudar o concorrente pode ser prejudicial;

·        quem apresenta dificuldades atrapalha a equipe;

·        somente os melhores merecem reconhecimento;

·        o valor do próprio resultado depende da posição dos outros;

·        pedir ajuda pode ser sinal de fraqueza.

Os estudantes que normalmente vencem podem sentir-se estimulados. Aqueles que acumulam derrotas, entretanto, podem passar a evitar desafios, esconder dúvidas ou assumir que não possuem capacidade para aprender determinado conteúdo.

Uma atividade planejada para motivar pode, paradoxalmente, fortalecer a insegurança de quem mais precisa do apoio da escola.

A competição sem fundamentação pedagógica não garante aprendizagem

Não seria correto afirmar que toda competição prejudica a aprendizagem ou que ela jamais possa produzir resultados positivos.

Uma competição breve, inclusiva e cuidadosamente planejada pode estimular participação, revisão de conteúdos e resolução de problemas. Competições científicas realizadas em equipes, por exemplo, podem mobilizar pensamento crítico, motivação e cooperação quando são integradas às atividades pedagógicas da escola. (SciELO Brasil)

O ponto central é outro:

A competição, isoladamente, não é condição necessária nem suficiente para que o aluno aprenda.

Para justificar pedagogicamente um campeonato, quiz ou sistema de pontos, a escola precisa responder:

·        Qual conhecimento será desenvolvido?

·        Como o professor identificará o que cada aluno aprendeu?

·        Todos terão oportunidades reais de participação?

·        O erro será utilizado para ensinar?

·        Os estudantes com dificuldades receberão apoio?

·        A atividade valorizará somente rapidez e acerto?

·        O resultado servirá para orientar novas intervenções?

·        A competição fortalecerá ou prejudicará as relações da turma?

Sem essas respostas, corre-se o risco de utilizar uma aparência moderna e divertida para reproduzir uma prática antiga: selecionar quem já consegue responder e deixar os demais assistindo.

A cooperação deve ocupar o centro da experiência escolar

Defender a cooperação não significa proibir jogos, desafios ou toda forma de competição. Significa estabelecer uma prioridade pedagógica.

A cooperação deve fazer parte da rotina da escola. A competição, quando utilizada, deve ser eventual, limitada e subordinada aos objetivos de aprendizagem.

Atividades cooperativas permitem que os estudantes expliquem raciocínios, confrontem diferentes estratégias, dividam responsabilidades e reconheçam que o conhecimento pode ser construído coletivamente.

Estudos brasileiros sobre jogos cooperativos na Educação Infantil destacam seu potencial para estimular ajuda mútua, colaboração, empatia, negociação de conflitos e construção de valores, desde que exista mediação intencional dos professores. (ResearchGate)

É importante observar que apenas colocar alunos em grupos não garante cooperação. Em muitos trabalhos, um estudante realiza tudo enquanto os demais somente colocam o nome na atividade.

Uma proposta realmente cooperativa exige:

·        objetivos comuns;

·        responsabilidades individuais;

·        participação de todos;

·        distribuição de funções;

·        troca de explicações;

·        acompanhamento do professor;

·        reflexão sobre o processo;

·        reconhecimento do resultado coletivo.

Na cooperação, o conhecimento de um aluno não ameaça o outro. Ao contrário, pode ajudá-lo a avançar.

Como transformar o campeonato de Matemática

A escola fictícia do início do artigo não precisaria necessariamente cancelar seu projeto. Poderia reconstruí-lo.

Em vez de premiar apenas a equipe com mais acertos, poderia criar uma Missão Coletiva de Matemática.

Cada grupo receberia desafios adequados ao seu nível e conquistaria pontos por diferentes ações:

·        explicar como chegou a uma resposta;

·        identificar e corrigir um erro;

·        apresentar duas formas de resolver um problema;

·        ajudar um colega sem fornecer a resposta pronta;

·        demonstrar evolução em relação à atividade anterior;

·        criar um problema para outra equipe;

·        relacionar a Matemática com uma situação cotidiana;

·        garantir que todos os integrantes compreendam a solução.

A escola também poderia estabelecer uma meta coletiva:

“O desafio será concluído quando todas as equipes alcançarem determinado nível de aprendizagem.”

Nesse formato, uma equipe que termina primeiro não é declarada imediatamente vencedora. Ela pode receber uma nova missão: produzir uma dica, preparar uma explicação ou apoiar a revisão coletiva.

A disputa contra os colegas é substituída por um enfrentamento coletivo do problema.

O sucesso deixa de pertencer somente aos mais rápidos e passa a incluir quem evoluiu, explicou, persistiu, criou, corrigiu e ajudou.

Mas como reduzir a competição se o sistema educacional produz rankings?

Essa é uma das maiores contradições enfrentadas pelas escolas.

Ao mesmo tempo que documentos pedagógicos valorizam inclusão, solidariedade, respeito aos diferentes ritmos e trabalho coletivo, sistemas educacionais divulgam resultados que frequentemente são utilizados para comparar escolas, redes e municípios.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o IDEB, reúne em um mesmo indicador dados de aprovação escolar e médias de desempenho obtidas no Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb. Segundo o Inep, sua finalidade é permitir o acompanhamento da educação e o estabelecimento de metas de qualidade para os sistemas de ensino. (Serviços e Informações do Brasil)

Portanto, o IDEB não precisa ser interpretado como um campeonato.

O indicador oferece informações que podem orientar políticas públicas e revelar problemas que precisam ser enfrentados. O conflito aparece quando seus resultados são transformados em classificações simplistas, premiações, punições ou julgamentos definitivos sobre a qualidade de cada escola.

A literatura brasileira sobre avaliações em larga escala reconhece seu potencial para orientar políticas e programas educacionais, mas também discute restrições e problemas relacionados ao uso dos resultados na gestão e na responsabilização de escolas e profissionais. (SciELO Brasil)

Um número não consegue representar sozinho toda a realidade de uma instituição.

Uma escola atende estudantes com histórias, condições sociais, necessidades educacionais e oportunidades muito diferentes. O resultado de uma avaliação precisa ser interpretado considerando o contexto, os recursos disponíveis, a trajetória da escola e as desigualdades existentes entre os próprios estudantes.

Dizer que uma escola é simplesmente “melhor” porque possui IDEB maior pode ocultar diferenças importantes entre as comunidades atendidas.

O indicador deve ser diagnóstico, não identidade

A escola pode não controlar a maneira como governos, meios de comunicação ou determinados setores da sociedade apresentam os resultados. Mas pode decidir como trabalhar com os dados dentro de sua comunidade.

Em lugar de perguntar:

“Qual escola ficou na primeira posição?”

Pode perguntar:

“Nossa escola avançou em relação ao resultado anterior?”

Em lugar de questionar:

“Qual turma obteve a maior média?”

Pode investigar:

“Quais estudantes ainda não aprenderam e que apoio precisam receber?”

Em lugar de premiar apenas professores cujas turmas alcançaram as maiores notas, pode promover encontros para compartilhar estratégias, analisar dificuldades e planejar intervenções conjuntas.

A comparação mais produtiva não é necessariamente entre uma escola e outra. É entre a escola que existe hoje e aquela que ela pode se tornar.

Isso não significa ignorar metas ou abandonar avaliações. Significa utilizar os resultados para compreender a realidade e mobilizar recursos, não para construir uma identidade permanente de vencedores e fracassados.

Escolas não precisam competir para melhorar

Quando duas escolas compartilham práticas pedagógicas, materiais, experiências e estratégias de intervenção, o avanço de uma não depende da dificuldade da outra.

Redes de ensino podem organizar encontros nos quais equipes escolares analisem problemas comuns, apresentem projetos bem-sucedidos e construam soluções coletivas.

Uma escola com bons resultados em leitura pode apoiar outra na organização de projetos de formação de leitores. Uma instituição que desenvolveu boas estratégias de acompanhamento da frequência pode compartilhar sua experiência. Outra pode contribuir com práticas de inclusão ou de ensino de Matemática.

Nesse modelo, bons resultados não são utilizados para produzir superioridade, mas responsabilidade.

A pergunta deixa de ser “como permanecer acima das outras escolas?” e passa a ser:

“Como nosso conhecimento pode contribuir para que mais estudantes tenham seu direito de aprender garantido?”

Excelência não precisa significar superioridade

O debate entre competição e cooperação não exige que a escola abandone a busca por bons resultados.

Uma escola cooperativa não é uma escola sem metas, exigências ou desafios. Pelo contrário: ela pode estabelecer objetivos ambiciosos e acompanhar rigorosamente a aprendizagem.

A diferença está na compreensão de excelência.

Na lógica competitiva, ser excelente significa superar os outros.

Na perspectiva cooperativa, ser excelente significa desenvolver plenamente as próprias capacidades e utilizar o conhecimento para contribuir com a comunidade.

A escola deve ensinar os estudantes a persistir, enfrentar dificuldades, buscar qualidade e assumir responsabilidades. Mas não precisa ensiná-los que o crescimento pessoal depende do fracasso dos colegas.

Conclusão

A competição pode tornar uma atividade mais movimentada, mas movimento não é sinônimo de aprendizagem.

Sem objetivos claros, acompanhamento e mediação pedagógica, campeonatos, rankings e sistemas de pontos podem valorizar principalmente os estudantes que já apresentam facilidade. Podem também transformar erros em motivo de vergonha e dificuldades em sinais de incapacidade.

A cooperação oferece uma base mais coerente com o direito de todos aprenderem. Isso não exige eliminar qualquer desafio competitivo, mas impede que a disputa ocupe o centro da experiência escolar.

Da mesma forma, avaliações externas e indicadores como o IDEB não precisam ser rejeitados. Devem ser utilizados como instrumentos de diagnóstico, acompanhados de análise contextual e orientados para o apoio às escolas e aos estudantes.

O principal desafio é impedir que a escola reproduza internamente a lógica dos rankings que critica externamente.

Mais importante que descobrir quem está na primeira posição é compreender quem ainda não conseguiu avançar e o que a comunidade escolar fará para que ninguém seja deixado para trás.

A verdadeira qualidade educacional não se revela quando poucos estudantes vencem, mas quando todos encontram condições para aprender.

Fontes consultadas

BAUER, Adriana; ALAVARSE, Ocimar Munhoz; OLIVEIRA, Romualdo Portela de. Avaliações em larga escala: uma sistematização do debate. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 41, número especial, p. 1367–1384, 2015.

INEP — Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Índice de Desenvolvimento da Educação Básica — IDEB.

MELLO, Diene Eire de; RAMOS, Samantha; CARLOS, Raquel; MOLLERO, Giovanna. Os impactos da gamificação e a utilização de jogos educacionais nas aulas de Língua Inglesa: TOEFL iBT Produção Oral. Texto Livre, v. 13, n. 3, p. 316–333, 2020.

PALMIERI, Marilícia Witzler Antunes Ribeiro. Jogos cooperativos e a promoção da cooperação na Educação Infantil. Psicologia Escolar e Educacional, v. 19, n. 2, p. 243–252, 2015.

SILVA, André de Oliveira et al. Competições em ciência usando tecnologia: um caso de estudo numa escola pública do Brasil. Ciência & Educação, 2018.

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Wadson Benfica

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